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Friday, 3 November 2006

Imobilidades

 

Agenda: jogar jogo da estátua contra uma estátua. Motivos objectivos: teimosia e perfeição. Receita: Escolher estátua de anos mais sábios do que os próprios, para que se possa aprender algo.

 

Chegou o grande dia. Um dia normal, como os restantes, de particularidades tão quotidianas. Jules Laforge, «Ah que la vie est quotidienne...». Sentamo-nos frente a frente. Sim, escolhi uma estátua sentada. Havia que dar uma hipótese de vitória mais sólida à estátua. Inspiramos, expiramos. A estátua ofende-se com este acto respiratório final. É sempre uma questão de semântica. Da locução e interpretação. Invoca-se o esquema de comunicação humana. Começa.

 

A estátua permanece imóvel, eu também. Os pensamentos não podem ser tomados como acção, e quanto à pulsação cardíaca não me pode ser imputada culpabilidade por não a saber parar. Estas estátuas procuram sempre contornar as regras da vida para que se tornem vitoriosas. Cuidado é pouco. Não, não corto a veia para estancar o fluxo sanguíneo; é inútil protestar. Teimosa. Perfeita.

 

Continuamos imóveis. Nada. E a qualidade da nossa imobilidade é equivalente ao valor do prémio.

 

E eis que a antagónica estátua se mexeu antes de mim. Em 1952, moldava-se para a sua glória. No mesmo ano, o meu pai esforçava-se ainda inconscientemente por desconhecer a minha mãe. Nem sequer haviam pequeno-almoçado um óvulo com frutos de túbulos seminíferos − receita maravilhosa.

 

A vitória sobre a estátua deveu-se ao astucioso uso de um raciocínio frio mas não impedernido, à escolha do adversário ideal e à correcta aplicação da sintaxe e tempos verbais no auge da contenda, tudo suportado pelo uso da história da própria estátua em seu desfavor. Elas ainda não entenderam que aquela placa identificativa jazendo a seus pés nos permite ler-lhes os pensamentos.

 

O sabor da vitória passando, projecto novo confronto. Indecido-me ainda entre disputar o cromatismo com um quadro ou o silêncio com filme mudo. Tento afastar o desinteresse pois a arte é um adversário fraco, e frágil.