Inspirado na proposta de José Saramago
de emergência da grande Hispania.
Ela entrou de leve na varanda,
sentou-se na cadeira
em movimento lento e ondulante
como a sua cabeleira.
E a ele, sem querer, deu-lhe perfil.
Emergindo da estática biografia
de Hemingway, daquele sexo,
religião, estágio, amizade,
progresso, rompimento,
sorte de não ser interrompido
nu ou no acto criativo,
amor que melhora a escrita,
literatura despida,
imaginação acicatada,
colaboração, ciúme,
memória e mais memória,
escrita no Café,
Fitzgerald, Dostoiévski
Pound, Stein, Baroja,
touros, pesca, caça, boxe,
whysky, champagne, vinho,
Espanha, França, Itália,
Quénia, Tanzânia,
América de Cima de Cuba,
memória electroconvulsada
e suicídio.
Queria dizer-se: Ainda atordoado,
ele ergueu e repousou a vista
na estética biologia
cujo movimento o havia espertado.
Aquela silhueta,
desenrolando-se interessante,
bem ossada.
E porque olhos lhe tatuavam a pele,
ela retribuiu-lhe a mirada.
Nenhum olhar ali era de baba.
Neste cinema primordial
de voyeur e voyeuse,
frame após frame,
o genital motor liquefez-se.
De correlação era o convite.
“Posso entrar-te?” inquiriu.
E ela, “Entra.”
No mar provocado
por cabelo castanho puro castelhano
e negra melena de herança sarracena,
fundiram-se o suelo de Espanha
e o solo deste reino.